28 de maio de 2010

Vou vetar.

É incrível como nós somos seres de hábitos.
Não vestimos verdadeira e generalizadamente hábitos na sua forma óptima para conjugar o verbo vestir, mas vestimo-los, numa combinação de um estranho andante e evoluído primata que se afeiçoa às novidades e as entranha, depois de as estranhar, no seu eu diário ou ocasional regular.


Dividimos a sociedade em camadas distintas de opiniões.
Há quem seja contra as mudanças ontem, hoje e amanhã. Há quem não goste de divergências do normal ontem, as aceite hoje e amanhã as implemente, primeiro tímida e depois afincadamente. Há depois quem as faça ontem, as faça hoje e amanhã de novo feitas sejam as mudanças pelos mesmos.

Parece-me a mim que a camada intermédia se alarga num conceito de maioria. E os extremos ficam assim, nas pontas, onde se estreitam as quantias.

Ter hábitos é seguro e só os que são capazes de arriscar se aventuram em fazer mudanças. E por isso esses ficam nas pontas.
Continuar nos hábitos, quando podemos calcar caminhos por traçar, também é um risco. Ir por onde todos vão, encontrar o que todos encontram, colher o que todos colhem, ver o que todos vêm… Corre-se o risco de ser o que os outros são. Corre-se o risco de se ser só mais um no meio de tantos. E corre-se o risco que depois da partida se seja não aquele que foi, mas só mais um que deixa espaço para quem há-de vir.

Os hábitos vêm das mudanças. São mudanças que se acomodam porque foram capazes de nos cativar e nós fomos capazes de as aprisionar inteiras naquilo a que chamamos de rotina.
E a rotina, pese embora seja segura, cansa às vezes.
Cansa ela, cansam os hábitos, cansam as mudanças que os provocam e cansamo-nos nós que provocados fomos pelo destino das coisas que descontroladamente controlamos.

Como há hábitos, cansaços e pessoas, há padrões de hábitos, de cansaços e de pessoas.

Há o branco que veste bem com o preto mas a branca que já não casa com o preto. Há o fantástico no ele ser maior e ela ser mais pequena. Há o fantástico nele sair e ela ficar em casa. Há o bonito sem adereços conventuais. Há o bonito nos traços normais. Há o ‘que bem que fica’ em falar igual. Há o ‘maravilhosamente correcto’ em fazer o que toda a gente acha bem. Há o perfeito na Barbie que fica com o Ken.

A culpa é dos fabricantes de bonecas, apetece-me dizer, que fazem a Barbie para casar com o Ken. E aí, aprende-se, ou desaprende-se conforme o ponto de vista, a ver a vida com olhos já cansados de novidades. E fecham-se sempre os olhos às mudanças, às necessidades de ser diferentes, de pensar e agir diferente.
Porque é que a Barbie tem que ficar com o Ken? Porque é que o Branco fica melhor com o Preto? Porque é que só o tradicional permanece nas boas graças?

Mas nós, como seres de hábitos, habituamo-nos ao facto de haverem padrões desnecessariamente incorrectos. Habituamo-nos a que se ditem as regras do mundo e se aceitem se contestar.

Eu hoje, veto-as.

Faço uso daquilo que me foi concedido assim que nasci. Faço uso da minha condição feliz de habitante de um mundo inteiro. E veto-as.

Veto as regras e os padrões e os hábitos e as vulgaridades.

Hoje veto tudo o que não está bem e veto muita coisa.

Por mim, estas regras não passam.

E ainda que promulgadas sejam, eu farei um mundo à parte. Um onde a mudança viva sempre que a rotina falhe.

16 de maio de 2010

É sim.

As pessoas não gostam, usualmente, do escuro.
É que no escuro não se vê.
Não há formas, não há imagens nem visualizações do caminho.
Só podemos fazer previsões e seguir os instintos, só esperar que o que nos vai surpreender para lá do que não se vê não seja pior do que a previsão estranha que do desconhecido fazemos, apenas acreditar que no escuro não há só fantasmas esquecidos, só memórias que incomodam…


E amar é um pouco assim.
Amar é viver no escuro.
É ter os olhos abertos e sentir com o coração, orientando-nos (ou desorientando-nos) sem poder viver do que se vê, porque afinal, quando se ama, nem sempre o que se vê se torna claro. Vê-se e fica-se na dúvida se foi real. Vê-se e fica-se na dúvida se não terá sido imaginação de um dos nossos meros milhões de neurónios mais sentimentais e ingénuos.

Amar é assim.
Acreditar no que não se vê.
Confiar que está ali, mesmo sem ver.
Mesmo que não hajam sempre os abraços ou as demonstrações de carinho.
Mesmo que nem sempre as mãos se unam quando se queriam unidas.
Mesmo que as palavras não sejam ditas, orgulhosamente, de um modo meigo, para se mostrar que o afecto é real, que o amor existe, ali.
Amar é sentir esse amor nos dias preenchidos de luz e brilho e saber que esse sentimento nos deixa sinceramente felizes. E nos dias cinzentos, em que o escuro se abate, amar é continuar o sentimento de dias felizes, sem o poder impedir e sem poder evitar que dias sim e dias não, gostemos ou odiemos, o facto de amarmos alguém, de coração.

Amar é viver ansiedade, desejo, saudade, orgulho, confusão, medo, ciúme, passividade, alegria, confiança, desconfiança, angustia, paz… e vivê-lo tudo ao mesmo tempo e muitas vezes, no escuro.
Porque quem ama vive no escuro.
Quem ama, vive o que não se vê.
Lá no fundo, vê-se sempre.
Mas também não se vê.

Vêm-se os olhares e neles o sentimento de leitura de alma. Vêm-se os sorrisos de cumplicidade ou de piadas privadas. Vêm-se os toques discretos de sentimentos que incomodam a compostura.

Mas o amor, isso que nem se sabe o que é, não se vê, no seu estado mais puro. O amor fica no escuro. Age no escuro. Monta palco e actua lá, no escuro. Cai no escuro. Morre no escuro.

E o escuro não é onde ninguém fica cego.
É só onde ninguém sabe onde vai parar.
É onde se escondem os medos e os desejos.
É onde se duvida se se ama e se se terá caminho para andar.

É por isso que o amor é o mais perfeito sentimento. O melhor e o pior num só quarto escuro. O melhor e o pior num só pacote de chá que se toma, ocasionalmente ou inesperadamente. O mais doce e o mais amargo, no mesmo prato. O mais fácil e o mais difícil. O amo-te e o odeio-te. O quero-te e o não posso querer. O tenho-te ou será que não tenho? O abraça-me e o vai-te embora. O olha para mim e o esquece que já nos vimos. O vem ter comigo e o desaparece do mundo. O amas-me e o não me amas. O confio e o mas mesmo assim… O eu quero ser e o não sei se deva. É a luz e as trevas.

E tudo isto, num só pequeno e imprevisível sentimento. Amar é assim. É definir e acrescentar uma premissa final onde afirmamos que nada sabemos do que é amar.

Amar é viver no escuro. E às vezes temos medo do escuro.

É. É difícil amar.

12 de maio de 2010

Estrangeiros.

Passeavam-se em terras comuns aos dois mas eram os dois filhos do mundo. Apesar de presos a uma terra por um laço de comunhão de luz dada, o seu berço era originalmente, o ser. Acima de qualquer nacionalidade, ambas diferentes e opostamente interessantes, eram os dois filhos do cosmos, nascidos das estrelas, baptizados na aurora e crescidos sobre o manto da humanidade e dos valores de amor por ela dados.


Unidos no laço estreito de denominação natural das províncias e afastados pelos laços de ilusão que em volta dos andantes seres se acometem, apesar de se conhecerem e reconhecerem, eram estrangeiros na terra um do outro.

Sem mapas, sem indicações de profecias, sem dicas para alcançar o ‘x’ de um itinerário imaginado no estrelado do céu de uma noite de chuva, são estrangeiros perdidos na terra um do outro.

Pouco têm além da crença que os une e nem isso é finito, já que as crenças voam com o vento e as uniões só precisam de um ‘des’ para se tornarem em desuniões. De bolsos vazios como a mente em dias cinzentos, com as mãos descontroladamente irrequietas e os olhares perdidos nos horizontes da procura, caminham lado a lado, nas ruas de terra abatida pelos poetas que a palmilharam em busca das odes e das odisseias.

Não se orientam pelo sol nem pelas estrelas porque para se quererem orientar eram precisos objectivos a cumprir. E amor e objectivos conflituam-se no campo do rigor e do sentir, onde inflexibilidade e extravagância sentimental não combinam nem convivem nem coexistem de todo.

Calçam as botas. Descalçam as botas, sacodem as pedras e voltam a calçá-las. Põe o chapéu, tiram o chapéu, caminham ao vento sem botas e chapéus como se nus estivessem e sabem que vestidos ou não, completos ou não, pertencem ao cosmos, à crença, ao Criador, aos destinos…

E é por isso que sendo estrangeiros na terra um do outro, sem se conhecerem, se amam perfeitamente num acaso chamado hoje, num desconhecido chamado aqui, se vivem e se exploram, como quem descobre os mares de há cinco séculos.

E cada passo lhes parece uma rota nova, que traz aos estrangeiros perdidos nas terras um do outro, as especiarias de outrora, os tecidos do conforto, os odores do exotismo, as vistas dos novos mundos.

Caminham, lado a lado, passo sobre passo. Recuam, avançam. Sorriem e desviam os olhares.
Sem bússolas nem mapa, de mãos nas algibeiras, caminham lado a lado, dois estrangeiros, apaixonados.

10 de maio de 2010

pedra filosofal.

Hoje foi um dia cinzento, como tantos outros dias o são. E não seria um dia nada mais que cinzento não fosse o cinzento do dia. Uma coisa é ser um dia cinzento e outra é ter cinzento no dia. Quando se tem cinzento no dia é porque não houve brilho suficiente.


Hoje deixei a porta da câmara secreta entreaberta e parece-me que os avanços na descoberta da pedra filosofal se retraíram. E esta pedra filosofal não é só uma pedra. É a minha pedra. A mais bonita das que até hoje já vi e a que mais me fez estudar, pensar, esboçar, barafustar de um modo totalmente afortunado. E esta minha pedra ainda não está bem descoberta e muito menos está sequer definida em si. Além de saber que estou a projectar a felicidade num amanhã, através e com ela, não sei bem o que pode ser este meu tesouro.

Na minha câmara estavam outras coisas também… Havia o saco dos valores conquistados e a prateleira de princípios ensinados pelo mundo. Havia os sonhos do mundo melhor, os planos para o mundo perfeitamente correcto e os projectos de como transformar os mutantes andantes e falantes deste sítio onde vivemos em pessoas do mundo e para o mundo. A acrescentar estavam também os tesouros já limados, afincadamente polidos e devidamente emoldurados.

Porque é que só a minha pedra pequenina e incompleta teve que cair? Ou foi o vento? Não, nunca é o vento. O vento só sopra, não transforma as pedras em pó nem deixa que os planos para as ter serem amachucados.

Até já pensei em não me importar. Em esquecer a pedra e em ignorar no que ela iria, possivelmente, resultar. Chorava uns dias a sua perda, sentia a sua ausência e tentava deixar que a vida me mostrasse outra pedra bonita. Mas quem me diz que haverá outra pedra bonita? Quem me diz que haverá uma pedra que me faça saber o que está me fez? E quem me diz que eu só choraria uns dias, só sentiria a sua ausência de ânimo leve?

Já pensei em correr atrás de quem a levou, perguntar onde a deixaram e depois trazê-la de volta.

Já pensei em recomeçar. Se eu gosto dela e se acho que ela vale a pena… Se eu não perdi tudo o que ganhei dela… Se eu acho que vivo melhor com ela do que num mundo em que ela não exista…

A minha pedra filosofal é muito mais que qualquer outra pedrinha mágica. Além de ser a minha é a que eu quero ter. E não é contraditório em si querer algo que é meu, porque já vive no meu mundo.

E agora, antes que me fuja mais alguma coisa vou tentar fechar a porta da câmara secreta e voltar ao meu plano, com o caderno de apontamentos na mão, com os ouvidos a tentarem aprender o ritmo, com os olhos fixos no infinito que é nosso e com a vida presa nos limites que separam a existência da vida.

6 de maio de 2010

saudades dos sonhos.

Lembro-me de quando era criança. Lembro-me de quais eram os meus sonhos, do que eu queria para a vida. Lembro-me de ser decidida e de ter objectivos. Claro que naquela idade nem as decisões iam além do sabor do chupa-chupa e da franja que eu própria cortei quando a minha mãe me queria infligir fotografias horríveis para a posterioridade nem os objectivos passam depois da meta de um casamento perfeito com alguém que me amasse desmesuradamente.


Hoje tenho saudades desses tempos. Tenho saudade da simplicidade de pensamentos que atrás ficou. Tenho saudades da ignorância que me permitia acreditar em amores inocentes e possíveis. Tenho saudades de tudo aquilo que eu acreditava ser eterno, imortal.

Tenho saudades da fé. Da fé no mundo e nas pessoas. Principalmente, tenho saudades de acreditar nas pessoas e no meu amor e no delas.

Tenho ainda um sonho guardado. O sonho do amor-perfeito. Porque os contos de fadas não foram feitos para dar às crianças expectativas inocentes. Mas sim, para lhes mostrar que há historias felizes, que nem tudo é negro, que a vida pode e deve ser perfeitamente vivida, tal como nos contos de fadas.

Esse sonho guardado não se mantém intocável. Mudei pormenores e deixei o felizes para sempre, acrescentando o enquanto durar.

Sonho com o meu amor-perfeito. Com aquele que será a sério. Com aquele que me fará perder as incertezas.

O meu amor-perfeito dir-me-ia olhos nos olhos que me amava.
Dar-me-ia a mão enquanto passeássemos ao fim-de-semana, abraçar-me-ia em frente aos amigos e teria orgulho no amor que sentisse.
Escrever-me-ia cartas se soubesse escrever com o coração, pintar-me-ia quadros se soubesse pintar com o coração, cantar-me-ia canções se soubesse cantar com o coração.
Levar-me-ia a sítios sem perguntar onde eu queria ir, teria uma surpresa para mim, far-me-ia feliz dia após dia, sempre sem entrar no ritmo de me ter como adquirida.
Teria ciúmes, pegar-me-ia ao colo e rodopiar-me-ia sem se importar com o estatuto de miúdo que essa atitude lhe daria. Seria indiscreto comigo, seria discreto com os outros.
Teria consciência e não me faria ficar confusa.
Seria inteligente e nunca me tentaria enganar com mentiras estupidamente fáceis de descobrir.
Seria fiel, com o olhar, com o confiar, com o amar.
Dir-me-ia sempre a verdade e seria querido ao ponto de perceber até onde poderia ir a cada instante.
Não esperaria que eu tomasse sempre iniciativa.
Não quereria que eu fosse igual às suas pretensões, não me mandaria ali ou acolá mas faria acordos vantajosos para ambas as partes.
Saberia conquistar-me dia após dia, como se precisássemos de nos apaixonar todos os dias, a primeira vez.

O amor-perfeito que eu guardo, nos sonhos, saberia que seriamos nós contra o mundo. Porque o amor seria tão impossivelmente grande e perfeito, que tudo aquilo que pudesse existir contra, não teria qualquer significado.

O meu amor-perfeito, seria sem dúvida, aquele a quem eu me daria de inteiro. A quem eu me iria dedicar, a quem eu iria prometer, a quem eu quereria agradar e conquistar a cada instante, sempre mais. O meu amor-perfeito seria assim, pleno.

Tenho saudades de ser pequena. Saudades de não saber o que era estar angustiada e de só pensar para fazer equações. Saudades de acreditar que o amor é possível e é fácil, que faz sempre bem e que nos dá a serenidade e a confiança que anima o espírito.

Tenho saudades dos sonhos. Tenho saudades de acreditar que um dia todos se iriam realizar.

28 de abril de 2010

And so it is...



A vida é cheia.


E apesar de tudo o que possa vir em forma de bónus descontrolado há sempre algumas coisas que podemos ser nós a ditar.

Podemos fazer as nossas escolhas. Podemos ser orgulhosos. Podemos ser conscientes. Podemos ser ingénuos. Podemos ser optimistas. Podemos ser generosos. Podemos ser reservados. Podemos ser confiantes. Podemos ser sonhadores. Podemos ser o que gostamos de ser.

Mas não podemos ser controladores-de-bónus-totalmente-imprevistos-destruidores-de-sanidade-mental. Não podemos ser controladores de coisas incontroláveis. Não podemos dizer que hoje não é um bom dia para aparecerem nem podemos gritar-lhes que já temos o suficiente e que está na altura de saírem tal como entraram. Não podemos dizer que não é adequado nem oportuno. Nem o podemos classificar do que quer que seja. Porque antes de lhe praguejar o primeiro adjectivo ele já lá está. Alojado. Gritante. Incomodativo.

Não podemos tirar e pôr ordem em sítios que simplesmente não estão ao nosso dispor e mais vale aceitar isso. Uma vida a pensar em controlar bónus do armário do salão principal de um castelo construído a duas mãos é uma vida sem viver.

Já tive imensos bónus apavorantes. Aliás, continuam a chegar, tal e qual como espasmos nervosos da vida. Descontrai-se ela e deixa-me a mim contraída.

São bónus sem indicações, esses, que me enervam a existência. Chegam sem rumo e retiram-me o caminho traçado em tempos serenos. Chegam e não me dizem onde vão e para onde me levam. Mas chegam. Sem que eu possa evitar.

Por isso mais vale habituar-me à ideias que há coisas, como a chegada de mais um descontrolo à meada existencial, que eu não posso controlar de todo, tal como há coisas, como aquilo que vou dizer a cada espasmo vital, que eu posso e quero viver. E viver é saber dizer sim e não, abusar de coisas que não se sabem e ter vazios de vez em quando. Viver é chorar quando se está triste, sorrir quando se está bem, usufruir do que se tem, sonhar em ter o que se quer e não se tem…

Eu não sei tudo. Aliás, sei muito pouco mesmo.

Mas o pouco que sei, diz-me, que eu posso ser orgulhosa, consciente, ingénua, generosa, reservada, confiante, sonhadora, ser o que gostar de ser. O pouco que eu sei, diz-me que esse salão, onde se acumulam os incontroláveis amontoados de coisas indefinidas que não se podem controlar porque são de facto incontroláveis amontoados de coisas indefinidas, é um espaço incerto, mas o mais bonito de todos. E disso eu estou certa. Estou certa que a vida é assim, cheia… Mesmo cheia de vazios, é cheia.

A excepção de tudo é que às vezes os vazios enchem. Mas a vida não enche os vazios. Os vazios são sempre vazios, porque os vazios vêm com os bónus. E os espasmos da vida não se controlam.

19 de abril de 2010

Este aquilo...

Não penso no tempo útil e inútil que perco agora. Pensarei amanhã ou um dia depois quando me apresentarem a conta de horas perdidas por um sentimento tão grande e definidamente nosso.


Tenho controvérsia nos pensamentos. Distinções e preconceitos que eu não sei ter mas que sei que outros não sabem não ter. Tenho sal nas ternuras e mel nos ímpetos que me elevam numa das salas do nosso castelo.


Tenho em mim muito de muito e muito de muito que eu não sei o que será. Somos estrangeiros na terra um do outro e mesmo assim, queremos morar perto.


Somos, e somos mesmo, uma primeira pessoa do plural que apesar de definida entre si e por si, se vê num mar de pontos de interrogação que derivam em reticências.


Somos aquilo que temos e que sabemos ser. Não somos as palavras de estima ou as de incentivo, não somos as palavras de consolo ou as de orgulho, não somos nem as palavras de carinho nem as de sedução. O que somos e nos aperta o peito num vazio pouco intermitente são os olhares discretos e voláteis, que ninguém sabe saber nem sentir. O que somos e nos faz fazer bem, reciprocamente, são os sorrisos que me fazem querer girar sobre mim, dançar mil vezes e cantar outras mil até que doa a voz e a vós vos irrite. O que somos e temos são os abraços que nos faltam e que ficam sempre a faltar…


Não sei não pensar, não sei não sentir, não sei não ter consciência, não sei preferir não compreender, não sei não sonhar, não sei não.


Só sei aquilo, que é um saber estranhamente sábio.


E apesar de tudo o que não sei e de tudo o que sei não saber, sei muito bem que em poucas palavras te posso dizer o que é aquilo. É que aquilo que se eleva emocionantemente incomodativo, aquilo que se ocupa dos pensamentos constitucionais de sonho, aquilo que voa em si num desejo lascivo de bem-querer, aquilo que se esboça num sorriso imperfeito e num brilho desmedidamente louco, aquilo é isto.


É isto mesmo.


E não há ninguém que me explique em menores palavras que aquilo é este.

16 de abril de 2010

I have a really good one.


Às vezes prometo promessas que cumpro. Outras vezes, calo-me egoísta e nem prometo com medo de não podendo fazer sonhar, não deitar por terra o valor dos sonhos.

Às vezes prometo promessas que não cumpro. Outras vezes, ouço prometerem promessas que não cumprem e não gosto do cinzento dos dias dessas promessas.
Assim, faço por prometer promessas que cumpra. E esta teria que cumprir.
Prometi-te um dia, escrever sobre e para ti. E pediste-me, nada de especial, algo só teu. E será, só teu.


As amizades são imprevisíveis tal como os ventos e os temporais no coração, tosco e único em si. Sinceramente, não me interessa como começou a nossa. Não quero saber do conceito técnico ou pré-compreendido daquilo que temos pelas outras pessoas. Não me interessa se eu te considero um amigo há mais ou menos tempo do que tu a mim me tratas.


As amizades são cruas e nuas como os pedaços amarelos de papel que escondemos nas gavetas dos baús que estranhamente não têm tampa mas gavetas. A tua amizade, o teu olhar no olhar, o teu sorrir por sorrir, o teu abraço afável, o teu dar de mãos e não fazer perguntas, percebendo com o olhar se me hás-de apertar ou acariciar a mão, tudo isso é nu e cru, sem dissabores, sem enganos, sem poesias imaginativas, sem senãos. A tua, e assim nossa, amizade é nua, porque não há conceitos, não há deveres seres nem deveres de sentir ou agir.


As amizades deviam ser como Primaveras perfeitas de calor ameno e Outonos melancólicos de estradas de folhas amarelas. A nossa amizade é assim. Não há o faz, sente, diz. Há o acho que devias, há o faz o que fizeres estarei lá e há o sente o que sente e eu sentirei contigo. Não há o não chores, não há o sorri nem o anima-te. Há o chora que eu percebo, há o sorrimos juntos e o vou animar-te e ficar a teu lado, ainda que bem longe, até que brilhes de novo.


As amizades deviam ser as folhas que se apanham e as flores que se apreciam, deviam ser o mar que nos afaga e o vento que nos saúda. As amizades deviam ser e são, sem senãos e porquês. Mas só o são aqueles com quem se é, sem mais nada ser.


Não sei escrever especial para ti, mas escrever de ti, é especial. Porque te sei especial, só por ti.


Não és apenas um, nem tão pouco só mais um. És dos melhores. És o mundo que acompanha, leve e discretamente, os voos do meu. És o ser que eu sei e o que me sabe também.


És um quadro pintado, fechado numa parede solitária de uma galeria de obras complexas que os críticos fingidos ignoram ou criticam só porque és demais para perceberem.


És a melodia que se compõe por ela só, numa sensatez de sentimentos coerentes incoerentemente. És a brisa que nem sempre aquece, nem sempre esfria mas sempre sopra, para me brindar com um sentimento de não estás sozinha porque eu vou estar lá sempre.


És a carta e o livro que escrevo e que escreves deixando-me estar e partilhar do que és e lês.


És a opinião concordante do modo de ver os mundos. És muito mais que o resto. Não és normal. Nem tens tipo. E é um risco escrever sobre o anormal, que não o sendo, é especial só porque é diferente naquilo que devia ser a regra.


Acho que hoje me fico por aqui. E sei que ficas aí, comigo, ainda que longe. Fico-me com a definição confusa do que é ser o melhor de alguém, mas com a certeza que és um melhor amigo que alguém, como eu, pode ter!

                                                                       Adoro-te *

12 de abril de 2010

tesouros.

Certos dias, naqueles de céu azulado e nuvens intermitentes, o mundo, numa teia conspiradora e intimidativa, lança-nos no vago da nossa, terna, escura, estranha e pérfida, mente.



Há dias, azuis e brancos, esplendorosos, magnânimos, em que ao pensar no amor e nos outros nos apercebemos da importância das coisas, das grandes, das pequenas, das coisas banais, das coisas extravagantes. E damos por nós a pensar em nós, canalizando o raciocínio para a ponta mais baixa do ser.


Às vezes baixo-me em mim e encontro tesouros perdidos ao nível do chão. Parece-me que sempre ali estiveram… E depois, pego-os, limo-lhe as arestas provocadas pelo arrasto do tempo, dou-lhes brilho e pó de estrelas e sonhos e coloco-os na prateleira dos valores na segunda sala magna do edifício conjunto do ser, do pensar e do sentir.


Num dia azulado, virtuoso e branco, encontrei uma pedra preciosa e perdida. E perdi-me no rumo a dar-lhe. Os tesouros não devem ficar apenas guardados, devem fazer brilhar outros baús cujos donos ainda não souberam como atingir o nível do chão por não quererem perder o empinado no nariz.


Perdi-me porque era uma pedra brilhante e séria, sedutora e altiva, que me cativou e me baralhou, quando me perguntou para onde iria agora que eu a tinha achado. Disse-lhe em surdina que ela ficaria comigo mas que o brilho dela iria tornar azul o céu de outras pessoas e que ela deveria ficar orgulhosa por isso. E ela, atrevida como a cor dizia e o aspecto tosco e desleixado não indicava, interrogou-me, maleficamente, quem seria tão importante assim.


E aí descobri porque muitas pessoas não se baixam em busca de tesouros no chão de baixo: porque muitos deles são esqueletos incomodativos que ficam a perturbar a consciência e a almofada.


A verdade é que cometemos muitos erros a dar importância às pessoas. Em excesso e em defeito. O defeito leva-nos à auto-flagelação dormente. O excesso leva-nos à auto-humilhação, à auto-desilusão, à auto-destruição de mundos cor-de-rosa. Parece-me a mim que quando erro nos temperos o efeito é parecido. Se por defeito anda, fica-me a moer e a remoer o sabor sem sabor. Se em excesso me pareça, ainda que às vezes assim dele goste, quando passa abaixo e repousa, deixa-me a ingerir quantias anormais do que das fontes brota.


Assim, naquele dia azul, o tesouro foi polido, idolatrado e depois, ao cantar-lhe a canção de emprateleirar, disse-lhe que iria escrever sobre ele. Inchou-se e brilhou, cantou-me que nunca ninguém o tinha feito sentir-se tão brilhantemente importante.


O brilho dele ficou sempre na minha mão. E recordo-o enquanto procuro tornar mais claros os dias cinzentos e os dias com nuvens constantes. Recordo-o com a certeza de que os meus níveis de importância nos corpos estranhos ao relógio biológico estão hoje bem perto do certo e que por isso não preciso de pôr nem sal a mais nem sal a menos.

8 de abril de 2010

Madness

Dizem que todos os génios eram loucos. Dizem que o amor tem uma grande parte de loucura e que a própria loucura tem uma certa razão.
Sejamos então todos loucos e ainda que sem uma canção sobre loucos de outras partes do globo, cantemos a loucura daquilo que é a existência.

Há loucura em cada emoção. Há razão em cada loucura provocada por emoção.

Há loucura na confiança, no depósito de expectativas, na partilha, na entrega, no olhar, no sorrir, no ouvir, no dançar, no tocar, no falar, no amar, no ser... Há loucura em querer alcançar todos os sonhos de miúdo e em querer alcançar o inalcançável. Há loucura na adrenalina e na acomodação. Há loucura no selvagem e há loucura na privação. Há loucura no negativismo e há loucura na prepotência.

No entanto, há razão, de igual para igual, com essa louca loucura. Andam de mãos dadas, tal como andam muitos outros semelhantes que nos tiram a pele lisa em volta dos olhos. Andam lado a lado, espalhando magia, do mesmo modo que o fazem mil e dois outros distintos gémeos seus.

Contradizem-se, como me renego eu.
Afirmam-se, como me acho eu.
Baralham-se, como me baralho eu.

Há loucura no acordar todos os dias. Há loucura no deitar todos os dias. Há loucura no amar de vez em quando ou todos os dias.
Há loucura quando colocamos 'se?', quando empregamos 'mas...' e quando achamos que 'não sei.' .
Há loucura quando afirmamos que será para sempre, que será nunca, que sim e que não.

E mesmo assim, há razão e sensatez em tudo.

Somos loucos? Somos. Nascemos nus, expectantes, firmes e loucos. Se tivessemos só razão, não sei se teríamos nascido.

Mas nascemos, derivantes dos habitantes das lianas. Loucos, selvagens, irracionais a tempo inteiro, mas nem sempre no activo do papel.

Somos loucos? Somos. Somos loucos e fazemos loucuras, da mesma maneira que somos amigos e confiamos, da mesma maneira que somos fãs e confiamos*, da mesma maneira que somos amantes e amamos, da mesma maneira que somos crentes e acreditamos.

Não há mal na loucura. Não há mal em usar a loucura que nos mostra como viver.
Deixemos o mundo girar, deixemos que ele seja racionalmente louco.
Não vale a pena lutar contra o que se sente.
Se temos frio, pois vistamos mais roupa.
Se temos calor, pois tiremos a roupa que vestimos a mais.
Se amamos, amemos.
Se odiamos, ignoremos ou resolvamos os problemas.
Se temos um dom, partilhemos.
Se somos loucos, loucos seremos.
Porque num dia racional, nus, queixosos e loucos nascemos.


* ser fã de um clube de futebol, cuja sigla é sl**, é a única excepção à loucura abordada neste aglomerado de ideias. Essa loucura é a única que não tem qualquer relação com a razão.


** b