25 de outubro de 2010

Unplayed piano.



Outra música daquelas que eu adoro.

A beleza e a magia das músicas que nos tocam está na forma como nos fazem sentir sem mudar nada. Num passe de magia fazem de nós as melhores pessoas, nos melhores momentos, com os melhores pensamentos.
E também há aquelas que deixam saudades devido ao seu timbre, devido ao que dizem enquanto cantam.

A saudade é um sentimento muito forte. 
Deixa-nos atormentados com as memórias que não se repetem, com o brilho dos pedaços mais felizes que fomos e até com aquilo que não chegámos a ser...Sim, que nós temos saudades daquilo que nunca tivemos.
Só queríamos outro abraço ou outro sorriso, outro beijo ou outra conversa... Ou então só queríamos aquele abraço que não chegou e o momento que não passou dos sonhos.
Conseguimos ter mil saudades ao mesmo tempo, mesmo quando não há nenhuma música que nos toca a caixinha de música dentro de nós.


senhora da rua.

 É uma senhora ordinária, no sentido de banalidade da palavra, que se acotovela no parapeito da janela do quarto de sua casa, com vista para a rua. A rua tem um nome e chamam-lhe a rua da Subida. E a senhora, que nome tem mas não interessa sequer para história, costuma ficar a ver as pessoas subirem a ladeira e descerem a Subida. Engraçado não é?,  as contradições literais em que se pode entrar por causa de um nome apenas…

A senhora é da rua. 
Vê as gentes passar com o tempo e o mundo dela gira com esse passar e com esse ver.  A vida dela é absurda e de tão absurda que é, quase nem existe.

É uma sonhadora e imagina as histórias de vida das pessoas que percorrem a Subida.

Ora são uns velhotes ainda apaixonados ou uns idosos suficientemente cansados das loucuras do amor para procurarem outro parceiro para partilharem as arrastadeiras.
Ora são uns jovens de calças rasgadas e cabelos desgrenhados pelas imbecilidades que acabaram de fazer no parque de cedros e amores-perfeitos no cimo da rua ou são uns casais de moços apaixonados que acabaram de descobrir no amor a sua doçura aliada à insensatez.
Ora são pessoas com sacos na mão ou pessoas com sonhos na cabeça, pessoas com caras tristes ou pessoas que vivem da comiseração alheia, pessoas com sorrisos de quem tem uma vida esplêndida ou pessoas que escondem os problemas por baixo da pele inventada.

A senhora da rua anda o dia inteiro à cata dos sonhos, dos problemas, das alegrias e das tristezas dos outros… com esperança que isso resolva a sua vida.
E sabe bem que a sua postura é inadequada para um ser humano - ou pelo menos para um ser humano que queira ser feliz - , mas ainda assim ali continua, presa ao parapeito corriqueiro e à Subida que se desce também.

Às vezes abre a janela para ouvir as vozes dos domingueiros que se passeiam na Subida todos os dias da semana. 
E copia as palavras para cada livrinho.
As bonitas para o livro de cabeceira, as insensatas não copia. As sábias para o livro de cabeceira, as parvoíces não copia. As apaixonadas para o livro de cabeceira, as de desprezo não copia.

O livro de cabeceira tem os sonhos e ela sonha que alguém lhe diga todas essas palavras que copia da rua, do mundo dos outros, do mundo onde as pessoas até descem a rua Subida.
A simpática senhora sabe no fundo que cada pessoa também olha a rua para viver a sua vida, em busca de um modelo de personalidade melhor, em busca de soluções ou reconfortos ou apenas para passar o tempo vazio dos seus mundos, vendo os tempos vivos dos outros.

Ali, àquela janela e na rua da Subida, o que a senhora parece não saber é que o mundo é cá fora, no redoma de vidro e dos cortinados encarnados… mas quando souber, quando tiver já escrito no livrinho de cabeceira as vezes suficientes de que o mundo está à espera para ser vivido, quando rasgar os cortinados e a vergonha que lhe atravessa, infundada, a alma, sairá rua fora, subindo e descendo a rua, passando à frente das janelas de outras senhoras da rua que vêm a vida passar, subir e descer na Subida, que esperam as suas reviravoltas também. 

rebelião.



As maiores revoltas são absolutamente silenciosas e invisíveis. 
Ou estamos a percorrer as ruas, de mãos nos bolsos e o olhar ausente ou estamos sentados num qualquer banco solitário à mercê da vista corriqueira de quem passa e olha sem ver, ou estamos sozinhos rodeados de pessoas que nem ouvem nem vêm o que dentro de nós corre... ou estamos noutro qualquer cenário de todo banal.
Não creio que haja nada mais complexo do que aquilo que cada pessoa guarda dentro de si e aquilo que faz com tudo o que possui. 
Muitas vezes, quando os sistemas que nos coordenam começam a falhar perante o mundo, aquilo que nos falta e aquilo que nos sobra conspiram com o resto do universo uma revolta, secreta, transparente e penosa. 
E quando ela acontece o melhor que fazemos é aceitar as mudanças e as retaliações.
Avaliar, objectivar, ceder, afirmar, melhorar, justificar: todos verbos com significados profundos quando o problema somos nós.
Por muito que se pretenda, dentro de nós, o clima nunca é pacífico num plano a longo prazo. As revoltas irão aparecer de tempos a tempos, quer feitas por nós, quer provocadas em nós.
Quando chegarem será preciso ter a firmeza para as levar connosco, no melhor caminho, até ao fim.
Porque no fim, contas feitas às retaliações e às mudanças, se não tiver valido a pena já saberemos onde regressar... Mas o melhor é que quase sempre vale a pena. E o sentimento de realização, de plenitude, de orgulho... vale a pena, vale muito a pena.

23 de outubro de 2010

love it.




Exogenesis Symphony: Ouverture.

Exogenesis Symphony: Cross-Pollination.

Exogenesis Symphony: Redemption.

Adoro-os... absolutamente!

quotes # 1

"Because without the bitter, baby, the sweet ain't as sweet." 
in Vanilla Sky.

Certo, certo e certo.

 Certo tal como o valor que damos às coisas quando as perdemos, tal como as saudades que sentimos quando por perto as pessoas queridas não temos, tal como o valor que damos aquilo que recuperamos após termos penado pela sua falta...

É por isso que o primeiro sorriso, depois da total ausência de expressões faciais felizes, é sempre o mais sincero e é por isso que guardamos na memória o primeiro abraço daquela pessoa e o segundo primeiro abraço, o terceiro primeiro abraço, o quarto primeiro abraço... 

É que quando perdemos as pessoas por algum tempo, quando as voltamos a ter connosco, temos as primeiras vezes de novo. 

Porque o amargo da ausência devolve a doçura terna das primeiras vezes a certos momentos. Porque o escuro de um período nos mostra a verdadeira pureza de um pedacinho de luz. Porque foi esse caminho estranho que nos mostrou o valor de outras coisas maiores. 

Precisamos dos dois para termos como avaliar. E nós, que somos seres humanos e por isso seres complicados e complexos, com propensão à complexidade exacerbada e à complicação desintegrada, queremos avaliar-nos a nós, aos outros e a nós com os outros. 

O doce e o amargo alimentam-se, mutuamente. 
Sem o amargo, seríamos ser fúteis e superficiais, incapazes de valorizar as coisas mais simples e mágicas da vida. Sem o doce viveríamos acostumados com a penumbra, atados a um banco de pedra fria, vivendo sem prazer e a julgar que a vida era assim, desprovida de brilho. 
O bem e o mal, o doce e o amargo, a metade e a outra metade... resumir-se-à quase tudo a uma questão de equilíbrio?

Seja como for... Because without the bitter, baby, the sweet ain't as sweet. E ainda bem que é assim.


22 de outubro de 2010

leituras.

"Pode ser o perigo que o atrai, pensa. O facto de estar a transpor um limite perigoso. O facto de cada carícia roubada através da objectiva da câmara ser potencialmente letal para ele.
Ou pode ser simplesmente o facto de ela pertencer a outro.
Até agora, ele nunca se apaixonou. Assusta-o um pouco: a intensidade dessa emoção, a maneira como o rosto dela se intromete nos seus pensamentos, a maneira como os seus dedos traçam o nome dela, a maneira como tudo, de algum modo, conspira para que dela nunca lhe saia da cabeça...
Altera o seu comportamento. Torna-o contraditório; ao mesmo tempo mais e menos tolerante. Quer proceder da maneira correcta, mas, ao agir assim, só pensa em si próprio. Quer vê-la, mas quando isso acontece, foge. Quer que dure para sempre, mas ao mesmo tempo deseja que acabe.


(...)


Os demónios foram feitos para serem vencidos. Talvez não com força bruta, mas com inteligência e astúcia. Já sente a semente de um plano a começar a germinar-lhe no subconsciente. Olha mais uma vez para o seu reflexo, endireita os ombros, limpa o sangue da boca e, finalmente, começa a sorrir.
Não se eu te matar primeiro... 
Porque não? Afinal, já o fez antes. "

É muito mais que um romance banal em que tudo gira à volta de amor.
É repleto de complexidade, personalidade, obsessão... de inteligência que se confunde com calculismo.
Tem um toque fenomenal sobre o poder das cores, sobre a influência das rotinas e dos padrões.

Do que li, gosto. Gosto muito.

21 de outubro de 2010

love it.



Hoje dei por mim a sorrir perante o som que uma mala de viagem provoca ao passear-se na calçada. 

Foi isso e a sensação de espontaneidade, a sensação total de liberdade e misticismo, que a mala às costas e o bilhete na mão deixam sentir e que aquela bagagem que levamos nos faz absorver.


Gosto disso... dos bilhetes na mão, dos sentimentos livres, da ansiedade dormente, da saudade e da expectativa, do desejo pela novidade. 

É bom ir, por ir. Ir porque se quer, porque se precisa, porque faz bem... Ir porque sim. 

E é bom saber que se vai voltar e ter esperança que ao regressar o mundo dance melhor e que a música tenha apanhado o ritmo.

E eu sorri. 

Sorri porque há o ir e o voltar. 

20 de outubro de 2010

Reticências

"Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na acção. 
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado; 
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa! 
Vou fazer as malas para o Definitivo, 
Organizar Álvaro de Campos, 
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre... 
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei. 
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir... 
Produtos românticos, nós todos... 
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada. 
Assim se faz a literatura... 
Santos Deuses, assim até se faz a vida! 
Os outros também são românticos, 
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres, 
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar, 
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos, 
Os outros também são eu. 
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política, 
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios, 
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida... 
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela, 
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela, 
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafisica. 
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar, 
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando, 
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta, 
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema... 
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra... "

Álvaro de Campos, in "Poemas" 

18 de outubro de 2010

Uma página sem título já o tem e é esse mesmo.
Lá porque não lhe deram um nome bonito não quer dizer que se vá embora com o primeiro vento ou que voando, voe só um momento.
É que o título nem lhe pesa nem a faz mais leve, só lhe dá nome. E o nome só serve para isso, para denominar.
Não é o nome que damos às coisas que definem aquilo que elas são na realidade.
As coisas são as coisas, como são, com os sentimentos que provocam e os momentos que despertam.
Os nomes das coisas são só os nomes das coisas.
Uma coisa sem nome só assim fica até eu resolver rotulá-la. E nem precisa de fazer sentido para ter nome ou não ter.
Mas não mudou nada do que é por isso.
Não é a ausência de um nome concreto para uma parte da nossa vida que lhe retira os valores, os pressupostos, os erros, as lições, as perdas e as vitórias.
O nome é só isso e a falta dele, disso não passa.