Eu na verdade gosto de política, gosto de saber a quantas anda (ou não anda) o nosso Governo (ou a falta dele), de ouvir as discussões de ideais e perceber em que ponta eu puxaria. Não sou de ideias radicais e detesto o conflito erróneo que se faz, das coisas erradas, com as pessoas erradas e pelos motivos errados.
Também sei que é fácil apontar defeitos, dizer o que se fazia se fossemos nós a decidir, achar que o mundo seria tão melhor connosco no poder. Somos, fazemos e acontecemos. É assim, quase sempre, não é?
Bem, não é.
Cada pessoa deve conhecer-se e saber para que competências está talhado. Se alguém se predispõe a exercer a nossa representação, levando a cabo os nossos interesses, assumindo-se como competente para tal, é-nos de direito apontar quando discordamos.
Devemos estar predispostos a fazer algo. Não apenas a apontar os pontos fracos e a criticar mas também a mostrar disponibilidade para fazer mudança. Como? Pelo menos votando, lendo e ouvindo as boas novas do país, dando a palmadinha nas costas quando se cai e apertando a mão para festejar. Interessando-nos pelo menos, não só para dar o ar de 'ah e tal que culto que eu sou',mas para saber com que linhas nos cozemos.
Tomar consciência.
E a minha consciência diz-me que o país não vai. Vai arrastado por forças desconhecidas, rolando na sua figura balofa de calças número cinquenta com o cinto a apertar a gordura das classes altas e com os dedos dos pés bem apertados nuns sapatos de pele banal num trinta e cinco de formato pequeno.
Estão a imaginar? Uma figura de cintura em forma de barril, com passos bem mais pequenos, quase idiotas, aos pulos que a panóplia conjuntural ainda permite dar.
É, está complicado. Eu não sei que opções sugerir mas sei que o caminho também não está fácil. Está tortuoso e a torturar.
Dói-nos o peso da má gestão, a descompustura internacional, a respiração sustida pelas medidas e pesos que se impuseram.
Afaga-nos a vista o visibilidade alcançada pela eleição de Portugal para membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU para o biénio 2011-2012, fazendo par com a Alemanha.
Servirá, talvez, para mostrar ao mundo que somos um rectângulo pequenino com potencial para explodir em valores, recheados de tradições, pontos vitoriosos de património cultural.
Pois é, somos um tesouro (escondido ou camuflado, é certo!), pronto a brilhar ao abrir a tampa do baú.
Só falta isso, não é?
Abrir a caixinha e sair ao mundo, mostrando o valor que se tem, que não é pouco nem muito, é demais.
Quando temos saudades de alguém, temos saudades dessa pessoa ou da pessoa que éramos com ela?
Será que sentimos saudades de todas as suas características ou sentimos a falta das características que realçávamos em nós quando estávamos juntas?
Talvez uma coisa leve à outra. Não poderei sentir saudades de alguém sem sentir verdadeiramente a falta da sua pessoa, daquilo que era, do seu sorriso e do seu olhar, da sua voz, da sua simpatia ou da sua falta de paciência, da sua inteligência ou do seu temperamento, da sua exigência ou da sua preocupação sincera, da sua excelência ou do seu virtuosismo. Do mesmo modo também me é impossível admitir que sentir saudades de alguém não me faça sentir saudades de mim... Dos sorrisos e dos olhares brilhantes, dos planos e dos sonhos fantasiosos e mesmo assim para cumprir um dia, dos momentos de êxtase e autenticidade, dos instantes de cumplicidade... Do tempo que se perdeu (mas que não se perdeu de facto, porque nunca se perde tempo com quem é importante!) a tentar retribuir todo o calor sentido, da magia que se sentia na companhia de quem parece ter voado para longe.
Diria até que se possa ter mais saudades de nós mesmos do que saudades dessa pessoa. Podíamos ter apenas saudades nossas e da nossa felicidade na companhia de quem não está. Mas mesmo assim, tudo isso estaria devidamente justificado com a outra pessoa.
Foi quem nos faz falta que nos despertou tudo isso. Foi quem foi que nos fez ser quem fomos.
Não poderíamos sentir saudades de alguém que pelo menos num momento sequer, nos tivesse feito felizes ou orgulhosos, nos tivesse despertado sorrisos, abraços espontâneos ou olhares amorosos.
E se por acaso nós não tivéssemos sentimentos, então a história seria outra. Apenas nos importaríamos com o nosso bem-estar e quereríamos essa pessoa por perto para nos elevar de novo ao topo onde havíamos chegado.
Mas não. Nós somos máquinas sentimentais, com planos e sonhos e outras coisas que nos deixam em patamares no mundo da lua.
E por isso sentimos. E sentimos a falta dos outros.
Pelo que foram. Pelo que nos fizeram ser. Pela beleza que tinham e faziam o nosso mundo ter. Pela música que saía da sua alma, pelos toques suaves e pela calma, pela festa interior que realizavam... E por conseguirem uma partilha bem plena de tudo isso connosco.
Assim as saudades são sempre duplas. Conseguimos sentir saudades de nós e da pessoa que nos levou a alma. Dos nossos sorrisos e dos sorrisos dela. Dos nossos sonhos e dos sonhos dela. Do nosso mundo e do mundo dela e dos dois juntos, quando num só se metamorfoseavam.
É por isso que doem sempre. Dói-nos o nosso peito e o peito do outro.
Dói-nos a nossa e a saudade do outro.
Quando uma saudade vem, nunca vem só. Traz sempre outra, sem sensibilidade nem dó, para se certificar que se uma apenas faz moer, a outra vem, senta-se e fixa-nos, até doer.
Penso que há certas coisas mais bonitas à noite, outras que ao amanhecer têm uma aura mais especial também e certamente que o pôr-do-sol traz magia a outras coisas também.
Ao olhar, pela noite, a cidade, apercebo-me de que há certas coisas que só se podem perceber com a escuridão da noite e com o brilho sedutor das luzes longínquas e que nada nos dizem.
Há coisas que têm que ser, há outras que são porque são, que estão, vão e ficam porque sim.
A aura envolvente de uma noite terna e de um céu limpo e aberto diz-me que tudo tem o seu tempo na vida.
Desde cedo que os nossos professores nos ensinaram que havia tempo para tudo. Mas na altura como o intuito era dizerem-nos que também era importante estudar e empenhar-nos nas lides escolares, a profundidade do pensamento passou-me discretamente.
Mas voltou. Aliás, muito do que passa por nós no decorrer dos tempos, volta.
O que damos, é-nos retribuído, acredito, um dia.
É por isso que essa lição de pequena me veio à memória.
Tudo tem o seu tempo, de verdade.
E é preciso aceitar isso.
É preciso olhar o mundo, nas diferentes horas do dia, vê-lo e percebe-lo, conhecendo-o aos pouquinhos e dando as mãos como quem namora, nos primeiros dias de Primavera.
Há que saber esperar então, como se espera para olhar o pôr-do-sol.
Esperar e olhar, como quem espera e olha atentamente a noite que não se conhece mas que se ama, ternamente.
Como quem se senta de mansinho, apenas para ter um minuto do dia em que a beleza do mundo atinge o expoente máximo. Porque há de facto olhares, sorrisos e toques que só são mágicos quando vividos numa determinada atmosfera. ~
Porque há mesmo momentos que só são especiais quando acontecidos num certo contexto.
Porque há coisas que são, acontecem e ficam, com simplicidade e inevitabilidade.
Tudo tem o seu tempo, tal como o nascer e o pôr-do-sol.
Tal como o olhar a noite e ter esperado que as estrelas brilhassem.
Tal como o olhar o invisível e saber que se encontrou o que estava perdido.
Há coisas que são mais bonitas assim, daquela maneira, no seu tempo.
Quase como algo premeditado, acredito que cada um de nós tem o seu lugar no mundo. Um lugar, no mundo, para cada um. Tal qual terra prometida, cada um com o seu lugar.
Mas ele não nos é dado, ao acaso. Nem sequer nos é dado, habitualmente.
Quando se pergunta onde pertencemos de facto, dizem que o lugar de cada um de nós, é onde está o coração. A resposta poética é, por vezes, uma ausência de resposta, porque nos incita a outra questão: onde temos nós o coração?
O nosso lugar no mundo não é algo tão simples e banal como escolher onde iremos estar amanhã. É sobre quem estará connosco, o que conseguiremos retirar de lá, quem seremos nós ali. E é também sobre aquilo que abdicamos ao estar ali, com aquelas pessoas e a retirar aquilo que eventualmente retiraremos. O nosso lugar é sobre nós, sobre o mais profundo de nós mesmos.
Dificilmente poderemos pertencer a um sítio onde, contas feitas, tenhamos mais em falta do que em saldo positivo.
Por isso, o nosso lugar é sempre connosco. Não é estanque nem imutável. O nosso lugar move-se quando se movem os sonhos, as metas e as posições. O nosso lugar adianta-se à mudança e sobrepõe-se às coincidências... Mas deixa-nos o fardo das mudanças. E isso é o que mais custa. Ninguém gosta de despedidas. E nas mudanças, de lugar para lugar, é certo e sabido que há coisas que se esquecem, outras que simplesmente não se encontram mais e outras ainda que se partem, em mil pedaços de vidro.
Mas depois, chegamos lá.
Lá é para onde os ventos interiores nos inclinam, para onde as tempestades furtivas nos arrastam e para onde o sol nos parece brilhar. Por isso é que, por muito que até fiquemos sempre no mesmo sítio, mudamos muitas vezes de lugar. Porque o nosso lugar é connosco e nós somos uns seres capazes de viajar com o vento, bem num sopro de momento, sem pestanejar.
Há alguns anos a minha resposta instantânea à pergunta cliché sobre o que queria ser quando fosse grande, era apenas que queria ser feliz. Ao dar essa resposta tinha já na consciência (embora em traços pouco definidos), os seguintes pensamentos: ser feliz é diferente de estar feliz; não queria ser uma pessoa feliz, mas queria ser uma boa pessoa e uma boa pessoa feliz.
A primeira parte do pensamento daria também um bom tema, mas agora apetece-me mais a parte em segunda posição. Afinal, o que é ser uma boa pessoa? Ou ser uma pessoa má? O que as distingue?
Na verdade eu até poderia listar aquilo que para mim as diferencia.
Generosidade, justeza, imparcialidade, honestidade, preocupação, autonomia, simpatia, perspicácia, sensatez... E tantas outras características que fazem parte de uma lista bonita para as boas pessoas cumprirem.
Mas a falta de uma qualidade não atira ninguém para uma classificação diferente. O conceito é extremamente complexo, subjectivo e refutável.
Todos os pensamentos estranhos, variados e complexos me deram a concluir que não posso simplesmente definir ou separar as boas das más pessoas. Talvez nem haja más pessoas, mas pessoas menos boas. Ou se calhar o que existe são pessoas menos más umas que outras, mas que no fundo ninguém se escape do vil fado.
Suposições não fazem metas, objectivos ou posições.
Hoje sei que mantenho aquilo que queria.
Quero ser feliz.
Quero ser(e não apenas estar)feliz e ser(aquilo que no meu entendimento se julga ser) uma boa pessoa.
Efectivar os valores teóricos que sempre defendi, realizar os sonhos que foram sendo imaginados ao longo da pauta de uma melodia ainda curta mas já decalcada, pincelando em traços pequenos e demarcados todos os pontos futuros que planeio ver na minha tela pintados...
A base talvez seja o respeito.
Mas será? Será o respeito por nós mesmos e pelos outros, a base para ser aquilo que sonhei ser?
Ou será que este pensamento, um tanto ou quanto demasiado preocupado em separar o trigo do joio, já me torna alguém menos bom porque estou a assumir-me como alguém com capacidade para emitir um juízo de valor sobre algo tão complexo?
Honestamente, não sei... É que a complexidade do assunto requer cuidados extra, por isso não me vou alongar mais.
Sei que irei tentar realizar com toda a convicção os requisitos em lista para chegar ao sonho de menina...
Ser uma pessoa( pressupondo não ser apenas mais uma pessoa, mas uma pessoa maior e melhor)feliz.
E para isso, há muita estrada para andar, muita meta para cortar, muitos sonhos para respirar e muitos valores para mostrar.
Há muito que deixei de tentar perceber a complexidade da vida.
Mas como em tudo, vamos aprendendo no decorrer dos tempos que a vida é um caminho cheio... de surpresas, decisões, conhecimentos, erros, lições, sorrisos, emoções, decepções, conquistas e derrotas, vazios, ambições, de ires e voltares. É uma mistura de etapas e ciclos, de renasceres constantes.
Para se encerrar uma etapa é preciso estar disposto a aceitar as mudanças, os valores conquistados e as coisas que esvaziámos dos bolsos. É preciso saber o que se deixa para trás e o que nem se deixa, porque nunca ali esteve.
Para iniciar outra, é preciso acreditar que se pode ir mais longe, que os valores podem e devem estar presentes, que os objectivos definidos serão atingidos com firmeza. É preciso estar disposto a correr, a dar de nós o melhor.
E o que deve estar presente em nós é a nossa consciência. De quem somos e de quem são os outros, do que queremos e do que queremos connosco e dos outros. Para onde vamos e para onde queremos ir.
Porque a vida não é só aquilo que está ao nível do chão. Porque "há sempre mil sóis para além das nuvens"! Porque os sonhos só se tornam impossíveis quando deles desistimos. Porque o brilho da vida está em sermos maiores, em sermos os sóis, em sermos os mecanismos que fazem a vida rodar e a nós com ela, numa dança frenética e rica em conquistas.
Porquê hoje, aqui?
Porque o castelo que eu quero fica acima das nuvens.
O amor tem um travo agridoce. No entanto, uma vez provado, no esplendor e na magia da sua essência, ficamos intensamente viciados nesse sabor que nos arrebata a alma, com vigor.
Quando provamos um amor ainda mais brilhante que aquele outro que um dia já achámos ser o amor-perfeito, o sentimento de plenitude que alcançamos é indescritível. Todas as sensações, todos os momentos, todos os sorrisos e todas as dúvidas, têm uma magia, uma cor, um aroma... demasiado surreal.
Quando se gosta, com a certeza de não se ter sentido nunca assim, damos a magia que vem do mais profundo de nós. E cada sorriso alcançado, cada abraço sentido e apertado, cada toque, cada gargalhada verdadeira e provocante, tem um valor incalculável, apenas porque não trocaríamos nada daquilo por nenhum valor no mundo.
E por muito que todo o resto valha, que vale sempre porque a vida não é só amor, quando se ama com a certeza do amor-perfeito, que nos abraça perfeitamente, é ali, junto a esse amor que queremos estar. Sem senãos e porquês. E a alegria dessa estrela é proporcional aos estragos que a sua partida pode causar. Se a felicidade é maior quando chega, também a dor que se sente se eleva a toda a dor que se sinta e se possa sentir. Fica o vazio. Fica a saudade. A dor, em espasmos violentos, não se mede sequer. É a maior de todas.
É por isso... É por isso que o sabor é agridoce. Que nos aproxima e afasta, num misto de sensações.
E é por isso, pela polivalência de sensações, de sonhos e riscos, que ficamos fora de nós quando amamos.
1 de setembro de 2010
"Sou um Ícaro sem asas. Mas o desejo de voar é muito forte em mim. Penso que andei sempre à procura de um Dédalo." - Sarah Dunant em O Nascimento de Vénus.
2 de agosto de 2010
Dar-te-ia um som, dois sons, três sons.
E dar-tos-ia novamente, repetidamente, até compor uma sinfonia que dignasse aquilo que eu sinto nestas pautas.
Seria um poema melódico que falasse do mundo ao mundo.
Teria tributo porque num agradecimento seria parcialmente baseado.
As notas reflectiriam os amores, os sopros, os suspiros, os desejos, as dúvidas, os sonhos e as pedras do caminho.
As frases terminariam sempre suave e repentinamente para começarem depois com vigor, com sentimento, com o ameno aroma que se sente no fim de um dia de Verão.
Cada pauta reflectiria um valor importante. E iria resumir-se tudo a um compasso de genuinidade.
Cada nota seria apenas o que era, sem pretensões de outra linha ou espaço.
Cada nota seria apenas o que era, sem fingir ser ou sentir ou pensar ou sonhar.
A melodia, no seu conjunto, retrataria o mundo como ele é, num jeito de sonho e realidade, combinando o melhor da vida.
Falar-te-ia de proporcionalidade. Os sorrisos para quem os despertasse seriam. Os abraços para quem os mostrasse fazer por sentir. Os olhares para quem irradiasse o brilho condizente com o mundo.
Falar-te-ia de lições aprendidas que ao ensinar se esquecem. Ser quem se é, sem medos. Lutar pelo que se quer. Não sorrir a quem não é. Não dar a quem não se quer. Não fingir. Escolher o melhor, no melhor, para o melhor.
Seria uma sinfonia, digna e terna, de poemas e contos sobre encontros e desencontros.
Repletas de lutas e tempos de pazes, de perdas e conquistas.
Seria a sinfonia de um professor pianista, perfeitamente perdido e encontrado em si, que ao ensinar teria aprendido que os sonhos e os sorrisos sinceros, genuinamente valem mais que qualquer aparência.
Seria a sinfonia de uma aluna de piano perdida. Que ao aprender encontrara a escolha de um sonho perfeito, sem pretensões vãs ou cruas.
Mas ao terminar, numa suspensão, terminaria com esplendor, num acorde estrangeiro, incógnito, misterioso e desejado, tal como o estrangeiro que percorre e é percorrido, num mundo de sonhos que se querem imortalizar, vivendo-se.